(ou tomar uma série de pílulas até digerir a certa)
Quero poder flertar com o vento e a água, que vêm e vão e vêem com tanta habilidade por todos os caminhos e talvez verdadeiramente enxerguem tudo o que há para enxergar. Talvez seja isso o que eu mais desejo: poder um dia dizer que enxerguei tudo o que eu, preso aqui atrás dos meus olhos, podia enxergar. E não só enxergar como também mostrar para quem quisesse tudo o que eu vi e apreendi. Se não o conseguir, ao menos tentar. Muito.
Vou gastar o verbo e leia quem quiser, não é assim?
Há o que se chama de partidarismo, que, na real, não faz mais qualquer sentido, porquanto a lógica que guia qualquer político no Brasil (senão no mundo) é exatamente a mesma. Hoje em dia, haja vista parcas exceções, o Estado foi reduzido a um bom gestor de negócios. Ou reduzido a nada, como no México. A questão é que não se trata de a Dilma dizer mentiras – TODOS dizem mentiras (ou verdades?); não se pode dizer que alguém que crê na Dilma é pouco inteligente. Primeiro, porque isso é muito pouco humilde: ninguém guarda a verdade. Segundo, porque é muito, muito inocente encarar o mundo como preto no branco; como se houvesse qualquer mentira e qualquer verdade a serem esclarecidas.
Vamos parar de viver na fantasia de que existe uma verdade só. Não existe uma resposta única, amigos. Tampouco existe isso aí, de Dilma mentirosa. Ou vai dizer que a política externa lastreada em acordos bilaterais é pouco virtuosa? Ou vai dizer que a privatização desenfreada que se viu há alguns anos não comprometeu as finanças públicas brasileiras? E o que dizer de setores dinamizadores da economia? É claro que a privatização de determinados setores traz benefícios. Afinal, hoje postamos asneiras no facebook via telefone celular, algo dificilmente atingivel não fosse a privatização anterior das empresas de telefonia e abertura para o capital estrangeiro. Mas, ainda assim, é necessário olhar com clareza as várias verdades.
Há virtude no governo Dilma; como houve virtude na impletmentação do plano Real há anos atrás. Dois partidos opositores – mas que, ora, conversam mais do que a mídia promulga. Ou você acha que, de fato, com efeito, algum dos dois pretende diminuir a autonomia do capital financeiro e verdadeiramente colocar o dinheiro em função social?
Vamos deixar de ser ingênuos e olhar com pequenez para o mundo e para tudo. Há várias verdades. E há cegueira.
’cause I felt it in my skin
even when I couldn’t see anything but your impression
- so far, so close
once it was part of me what I’ve seen; part of me in the eyes of yours
- so far, so mine
pois cataliso o mundo dos seus olhos; em seus olhos
corrompo-lhes a luz e faço alquimia dos meus desejos
How is it possible for a womam, for a voice I am never to listen to directly to me, be able to touch me so tenderly deep; to feel so terribly sweet?
Louder than sirens, louder than bells; sweeter than heaven and hotter than hell. Backed by an orchestra and a large choir team, Florence + the Machine performed what seems to be one of the most astounding shows The Royal Albert Hall has ever witnessed. On behalf of the Teenage Cancer Trust, last Tuesday, the band gave the world (and the lucky londoners) an unforgettable moment. It was not a music performance. It was art, pure and magnificent. I have not got the chance to watch the full concert so far, but I could see what the band did with their pounding track “Drumming Song” and, oh Lord. For some goddamn reason, one cannot simply overlook Florence Welch and her band.
This is not by chance; this is not something you overlook. This is just what love should have sounded back in a time when art and pleasure were not so far from each other.
the salt came back to life, resurrected in exquisite colours
now it’s got some kind of spice; some kind of light
so singular in its being; so different from what it used to be -
this time, you cried it over me
and I wore your tears inside out
even if from as far as you couldn’t see
even though the salt was sweet
as sweet as we
Não é a primeira nem a última vez, por certo, que me vem à cabeça a idéia estúpida de voltar no tempo e aniquilar quem quer que tenha inventado isso de lhe contar a passagem, como se fosse o tempo algo parecido com as ovelhas de um rebanho fugidio. Talvez se me contassem os fios de cabelo brancos, não me parecesse tão indecorosa a desfeita de fracionar algo tão fluido e místico em dias, meses e anos.
“O tempo é ilusão”, foi a fala que me trouxe de volta a esse imaginário – fala que não era minha, mas agora é. Não acho que se deve ter receio de ecoar aquilo que lhe parece verdade – dada a devida cautela. Pois que há muitas verdades (e então nenhuma?) é bastante evidente. Ou não? Desconcluir (palavra que não existia, mas agora, aqui, existe) é necessário.
Pois venho (quero) desconcluir o mundo em seu tempo, e o tempo nesse mundo. Certa vez, debaixo e durante uma chuva de meteoros, uma conversa silenciosa no meio da noite me trouxe o seguinte: o mundo é o que falamos dele. Melhor: o mundo “é” porque o chamamos assim. E mais: o mundo “é” porque entendemos, todos, o que é “mundo”.
A menos que admitamos que haja mais verdades; mais possibilidades. A menos que o desconcluamos.
Quem dirá não haver mais mundos? Ou seja: quem dirá que não podem existir diversas percepções de mundo? Talvez a palavra nos delimite. Talvez ela esteja errada. Talvez todas as palavras estejam erradas! Porventura, só se pode de fato pensar livremente se não houver limites à palavra – mas como pensar sem ela? Creio que, para aprender a pensar, precisamos passar pela delimitação de um campo lexical, e só depois se pode dele abstrair. Isso traduz algo em que recorrentemente penso: a fim de alcançar determinado objetivo, faz necessário passar por etapas que são, em si, indesejadas. É válido então (porquanto impossível de outra maneira), realizar algo “contrário ao desejo” para se atingir certo fim. Isso é: supondo o “fim” como se o entende no senso comum.
Quem dirá, portanto, não haver outro tempo? Ou haver tempo? Sim há o relógio. E o que mais? Isso porque o tempo, porquanto infinito, é uno. Pois todo instante comunga da mesma qualidade de ser completamente diferente do anterior. Ele não volta – ainda que o relógio nos sugira o contrário. Pode até assombrar, pode durar dias, mas não volta.
Porque o tempo, aquele que importa, é como rio . Não se deve apenas acompanhar-lhe a passagem (e nem assisti-la, como espectador). O rio está lá para nos tentar a mergulhar. Mergulhar no infinito, no tempo – que está cá dentro, por detrás dos olhos; lá em cima, depois de tudo; ou lá embaixo, no fundo do oceano.
- i really did want to go with you
- but you’re not coming
- but i intended
- but you’re not making it for real
- if i intended it, it was- is real
- no, it’s not
- then why not?
- cuz it’s not touchable
- reality is not always tangible
- but you gotta be
- why?
- cuz it’s all about-
- skin?
- a pounding heart.
- it pounds from far away
- but then i can’t hear it
- then you fucking love it
-
I send you my thoughts in paper kites
landing on the sand by the salty water
in exchange would you please send me the breeze
so I can craft paper planes and plans a little longer
so she’d kill her reflection if she could do so
for how clever it looked there, on the other side
a taunting image behind silver and glass
infuriatingly smart, frustratingly far
“And I never wanted anything from you – except everything you had and what was left after that too”
Não tem como descrever direito o que aconteceu na terça-feira última (terça-feira significando aqui tudo o que aconteceu até eu dormir na quarta, certo?). A experiência foi surreal! O moderado festival, Summer Soul Festival, prometia atrações que culminavam na performance pop e teenager de Bruno Mars. Primeiro viriam as inglesas Dionne Bromfield e Rox. Mais tarde, o brasileiro Seu Jorge e, enfim, o estadunidense/havaiano/porto-riquenho/filipino Bruno Mars. Mas o importante, meus caros, estava exatamente no meio, na terceira apresentação do evento. Com as luzes apagadas e a platéia em convulsão, dispensando a contagem regressiva que precedeu o início de todos os outros shows, entravam em cena Florence + The Machine.
E apesar de ter-me preparado para o momento, não deu certo. Foi tudo muito mais absurdo, muito mais extraordinário do que se poderia ter imaginado, de verdade! A banda destoava de todo o resto que estava escalado para aquele dia, tanto no tipo de som que faziam (e fazem), quanto na própria produção do espetáculo. Harpa, duas baterias, backing vocals, piano, um baixo fenomenal e a voz suave e agressiva de Florence Welch – tudo isso cria um som tão orgânico, tão rico que o torna singular e inconfundível. É impossível ignorar uma banda assim, ame-a ou deteste-a. Só que, se o caso for detestar, amigos, recomendo ouvir direito – recomendo, até, ler direito.
Não menos que mágico, foi uma daquelas experiências que tornam quase plausíveis a levitação e o nirvana. Agridoce, profano e sagrado, suave e feroz. Não há nada que não seja encantador a respeito de Florence + The Machine. A beleza e a força da vocalista no palco são um show a parte – e ao mesmo tempo, apenas parte da completude cósmica da banda. De modo maravilhoso, a banda foi a atração mais interessante de todo o festival, e não só porque é, de fato, algo extremamente singular, ainda mais em terras brasileiras. Flo Welch e sua banda são mais que únicos. São, enquanto manifestação de tantos contrastes, a própria condensação de sonhos, de extremos; a materialização artística do maior desafio de todos: o equilíbrio – ainda que flertando claramente com todo o caos.
Foi como uma celebração ao caos, e ainda o expiar de todos os demônios. É outra alma, daqui em diante; é outra vida. E tudo o que se seguiu apenas coroou o dia como um daqueles que serão lembrados pra sempre porquanto seu significado dura e perdura.
Então, por fim, mais um brinde – mas, dessa vez, não ao equilíbrio como em outubro passado, mas ao sonho.
“I am done with my graceless heart, so tonight I’m gonna cut it out and then restart”