
ciclos criativo (o pentágono) e destrutivo (o pentagrama) dos cinco elementos do wu xing.
Às vezes eu penso que, na maior parte do tempo, nos perguntamos todas as coisas erradas a respeito do sagrado e do divino. Ora, a questão mais importante não é de onde viemos nem para onde vamos, mas o que diabos devemos ou podemos fazer nesse mundo; aqui e agora. Tão mal colocada quanto está a clássica indagação: “porque Deus não impede que o mal nos seja afligido?” Porque ‘livrai-nos do mal’ tem muito mais que ver com superar e enfrentar o mal do que repeli-lo.
Ontem foi mesmo um dia muito interessante; dia de reencontrar amigos, enfim. Mas a conversa que se desenrolou no pós-encontro foi uma das mais ricas de todas: sobre música, sobre o que é sagrado, sobre transcendência.
Obviamente, não se conclui coisa alguma (ou quase) numa conversa dessas, apenas se levantam alguns pontos ou se encorpam velhos pensamentos e convicções. Ainda assim, à luz de tudo o que foi falado, desde as habilidades vocais de Jim Morrison à crenças satanistas, creio que alguns pensamentos se provaram mais marcantes no fim das contas, pensamentos que me ajudam – no limite – a pensar (ou complicar) o mundo todo.
Por exemplo, e em primeira instância, questiono o todo-poderoso Deus. Não que Deus não exista, não. Mas dentre muitos, penso que esse deve ser seu pior nome, por duas razões básicas. Por um lado, por condensá-lo em uma imagem (ainda que sem forma), numa idéia que ecoa um homem: desprovida de imperfeições e munida de poder absoluto. Por outro, por ser tomado como um Deus que intervém a qualquer momento para proteger sua criação.
Meu ponto é o seguinte: talvez – e apenas talvez – o divino não se apresente desse modo. Talvez o sagrado não se cristalize na idéia de Deus Pai, mas no seu entendimento como luz presente em todo ser vivo; energia que corre por qualquer tipo de matéria. É óbvio que isso pode estar errado – mas tanto quanto qualquer crença. Por vezes me passa pela cabeça que existe consciência na matéria inanimada: afinal, por quantas vezes não me senti reconfortado pela água ou pela brisa, quando ninguém pôde me ajudar em pessoa. E se houver mesmo espírito na água?, ou no vento? “Mas isso é o que os seus sentidos despertam em você”, diria alguém. Pois então, qual a diferença?
Sinceramente, advogo que, a partir do momento que se assume a existência de Deus, pouco se pode dizer sobre outra crença qualquer. Não é lógico, coerente ou de bom senso julgar quem quer que seja por ele ou ela acreditar na influência que a disposição dos astros exerce sobre um ser humano no momento de seu nascimento, por exemplo. Se um acredita em uma existência que nem se pode ver, por que diabos se vai criticar alguém que acredita no poder das estrelas? No limite, o cidadão que aí vai a acreditar nos signos do zodíaco, por exemplo, pode ter muitos mais argumentos numéricos, imagéticos e gravitacionais que justifiquem sua crença. (Não que uma crença precise disseo). No fim das contas, creio que todo tipo de sensibilidade em relação ao transcendente é válida. Não sou absolutamente ninguém para dizer que uma religião é melhor que a outra, ou que não faz sentido algum seguir uma doutrina qualquer. Faz, sim – ou talvez deva fazer.
Pessoalmente, acredito menos na religião e mais na religiosidade. Confundir as duas coisas me parece – com o perdão da colocação – honestamente tosco e simplista. Religião diz respeito às construções teóricas, filosóficas e doutrinárias que competem a uma determinada crença, com a proposta de contemplar o que quer que esteja além do mundo físico. Religiosidade, por sua vez, compreende o modo de se relacionar com o transcendente, sem necessariamente estar imersa em qualquer religião. Naturalmente, uma religião, enquanto um belief system (a frase fica melhor em inglês), compreende determinada religiosidade. Por outro lado, alguém que se relaciona com o metafísico de uma maneira qualquer, não precisa estar inserido numa Igreja ou grupo religioso. Em outras palavras, pode-se ter religiosidade sem se ter uma religião.
Creio eu que essa fratura entre religiosidade e religião seja essencial no pensamento não apenas para melhor contemplar a pluralidade de crenças que se dispõem nesse mundo, mas também para, simplesmente, abrir a cabeça para a diversidade, para a existência de modos de pensar completamente distintos entre si e igualmente plausíveis. Talvez toda sensibilidade existente com relação ao sagrado esteja certa; talvez todas elas estejam completamente erradas. Talvez “Deus” não exista.
Mas, para mim, ele – ou isso – existe, sim; ainda que de maneira singular em relação ao dominante imaginário cristão. No modo como eu vejo a questão, Deus não deve estar ali em cima, olhando por todos e jogando ad infinitum com o Diabo. Deus, o Tudo, a Luz, ou a Verdade está presente em tudo – e todos. Talvez uma palavra ouvida por uma porta entreaberta seja uma manifestação do sagrado; ou talvez aquele momento, fugidio, em que tudo parece estar absolutamente bem. Possivelmente – e aposto muitas fichas nessa – a música seja algo divino. E, no fim das contas, até mesmo um olhar.
Creio que Deus não está no inacessível, seja ele um livro ou uma dimensão além da vida. Talvez até devamos aprender mais com os orientais do que pensamos, a respeito do equilíbrio entre os elementos e entre tudo o que existe no mundo. Sincera e humildemente, acredito que a Verdade esteja escondida em todos os lugares. O mistério é saber enxergá-la; ouvi-la; tocá-la; ou, quem sabe até, beijá-la.
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Se vale alguma sugestão de pesquisa, acho interessante procurar saber sobre a teoria de Gaia (Gaia Theory), a princípio por curiosidade – e quem sabe para mais que isso. O Wu Xing, também. São teorias e belief systems essencialmente orientais, que denunciam um compreensões singulares do mundo, da vida e do espírito. Talvez sejam essas as grandes verdades dos tempos.
Ou não.